Há muito tempo desejo escrever sobre a intersecção entre a espiritualidade e a saúde mental — ou melhor, sobre a falsa dicotomia entre a fé e a ciência. São tantas nuances que, se meticulosamente esclarecidas, revelam ganhos extraordinários para a nossa vida.
Para quem já me acompanha, prazer em vê-lo aqui novamente. Se você é novo por aqui, seja muito bem-vindo.
Cresci em uma família evangélica e, como muitos que frequentaram igrejas pentecostais, carrego histórias e traumas que a caminhada religiosa pode impor. Felizmente, já foram tratados. Mas deixo um recado: se você viveu intensamente as décadas de 70, 80 ou 90 no contexto eclesiástico, espero sinceramente que já tenha feito terapia. Pesquisas indicam que problemas emocionais podem ser potencializados por uma religiosidade rígida ou mal compreendida.
Hoje, como psicólogo, vejo líderes e cristãos enfrentando um dilema exaustivo. Além das responsabilidades ministeriais, há a vida lá fora: família, carreira e educação. Muitos buscam a Deus para curar suas almas, mas continuam presos em ciclos de esgotamento. A pergunta que ecoa no consultório é dolorosa: “Se eu tenho fé, por que ainda me sinto assim?”
Essa é uma pergunta séria. Atendo muitos pacientes que professam uma fé profunda e complexa. Em muitos momentos, essa fé é fonte de consolo; em outros, gera um conflito interno dilacerante. A resposta, muitas vezes, não está na “falta de espiritualidade”, mas na fragmentação dela. Vivemos uma desconexão entre o que cremos e como funcionamos biologicamente. Essa dissonância gera um estresse que reflete diretamente na saúde emocional. Biológicamente, o estresse crônico gera o que o neurocientista Robert Sapolsky define como o “sequestro da amígdala”, prejudicando o funcionamento do nosso Córtex Pré-Frontal — a área responsável pelas decisões e pelo controle dos impulsos.
Na teologia, isso se conecta perfeitamente ao conceito de Sophronismos (2 Timóteo 1:7). O teólogo Dallas Willard define isso como a mente restaurada para o autogoverno. Entender sua biologia é, portanto, o primeiro passo para a verdadeira Metanoia. Para alcançar essa saúde, é preciso coragem para ser inteiro. Isso exige enfrentar a tensão entre o Self (quem eu sou) e a Persona (a máscara que mostro aos outros). A psicanálise, de Carl Jung a Donald Winnicott, alerta sobre o risco do “Falso Self” — a máscara da perfeição.
Na liderança, essa fragmentação da identidade não é apenas cansativa; ela pode ser fatal. Como diz Philip Yancey em Maravilhosa Graça, a cura exige um ambiente seguro para a vulnerabilidade. O que não é confessado ou tratado, acaba se manifestando no corpo através de sintomas e doenças. A renovação da mente descrita em Romanos 12:2 é, na prática, um processo de neuroplasticidade. Criar novos hábitos de saúde mental exige intenção, técnica e, acima de tudo, constância. É o exercício bíblico de “despojar-se do velho homem e revestir-se do novo” (Efésios 4:22), pavimentando novas trilhas neurais de paz e segurança. A saúde mental cristã não é um “anexo” da fé. É a fé aplicada à nossa biologia e à nossa história, resultando em uma Psiquê equilibrada.
Se você é cristão, se foi ferido na caminhada ou se é um líder que se sente fragmentado, entenda: uma mente sã é o melhor altar que podemos oferecer a Deus.
Referências:
WILLARD, Dallas. A Renovação do Coração. Ed. Mundo Cristão. (Referência em formação espiritual e psicologia bíblica).
HESCHEL, Abraham Joshua. O Shabat. (Fundamental para a neurobiologia do descanso e limite).
YANCEY, Philip. Maravilhosa Graça. Ed. Vida.
SAPOLSKY, Robert. Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst. (Referência mundial em biologia do comportamento e estresse).
WINNICOTT, Donald. O Brincar e a Realidade. (Estudo sobre o Verdadeiro e Falso Self).
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